À data, contava 19 anos. Aos 26, Cláudia Semedo é actriz, apresentadora e radialista. Como apresentadora, integra uma rubrica de "Contacto", da SIC, conduz um programa no Benfica TV, além de dar a cara pelo "Desafio verde", da RTP2. Mantém ainda colaboração na Antena 3. Recebeu, há pouco tempo, o prémio Actriz Revelação Bernardo Santareno, mas diz não viver refém do reconhecimento. O próximo projecto é um filme rodado em Moçambique.
Como consegue gerir tanta coisa?
Não é nada difícil. Sinto-me actriz, aliás, essa é a minha formação. Encaro os vários projectos como um futebolista: jogo a jogo. Estou de corpo e alma no que quer que esteja a fazer.
Qual é a sua formação?
Tenho o curso de Teatro Profissional de Cascais. Depois, fiz uma formação específica durante um ano.
Começou na Televisão aos 19 anos no "Catarina.com" da SIC.
Sim. Nessa altura, tinha acabado o curso e estava no Teatro Nacional D. Maria a fazer uma peça da Fernanda Lapa, "A viagem de Pedro Afortunado". Foi então que li no jornal que estavam à procura de apresentadoras. A minha irmã convenceu-me a participar, mas fiz aquilo de tal forma descontraída, que nunca pensei que ficasse.
Absorveu aí muitas aprendizagens?
Sem dúvida. Tudo o que sei sobre televisão foi ali que aprendi. Tive a sorte de me estrear com as pessoas certas. No teatro, com a Fernanda Lapa, e na televisão, com a Catarina Furtado, na SIC, que é uma casa com uma formação humana muito grande. Ou seja, todos estavam disponíveis para ensinar.
Há um misto da sua presença no pequeno ecrã: apresentadora e actriz...
Todos nós somos tridimensionais e feitos de vários condimentos. Revejo-me como actriz, apresentadora, pessoa que adora cozinhar, escrever, pintar. Todas essas peças compõem o meu puzzle.
É selectiva a escolher projectos?
Sim. Mas não por serem projectos maiores ou menores. Mas ao nível da diferença de representarem um desafio e de me fazerem crescer.
Transporta técnicas de actriz para a apresentação?
Serei sempre um resultado das minhas experiências. Na representação, o facto de se ter uma contra-cena é muito importante e aplico isso na apresentação. A capacidade de olhar nos olhos de uma pessoa e tentar entrar-se no mundo dela. Não se tocam no sentido em que na apresentação sou eu ao serviço de alguma coisa. Na representação, despeço-me, dispo-me de mim, ao serviço das personagens.
Partilha da ideia ventilada de que um actor se realiza no palco?
Não. O teatro dá-me muito gozo, mas um actor realiza-se a representar. Há muitas coisas que aprendi só na televisão, porque é um ritmo alucinante. Trabalha-se muito mais o músculo da memória. A televisão é o ginásio do actor em que se exercita velocidade, o tónus. O teatro é uma espécie de templo, onde se aprimora a capacidade de actor. O cinema é uma magia. Estou de malas aviadas para Moçambique, onde vou fazer um filme produzido pelo Galvão Teles e realizado pelo João Ribeiro. É uma adaptação de um livro do Mia Couto, "O outro voo do flamingo".
Sendo tão nova, qual é a sensação do trabalho estar a ser reconhecido?
Foi inesperado. Não trabalho para os prémios, mas para um público e os prémios são o reflexo do reconhecimento do público. Sente-se aquele quentinho.
Em que referências se inspira ?
Em tantas. Mas as mulheres estão um passinho mais à frente.
Há aí alguma vertente feminista?
Não. Sou por direitos iguais, seja de género, seja aplicado à raça ou religião. E claro que as mulheres sofrem mais. E sou uma mulher de ascendência africana e goesa e não caucasiana.
Sentiu já alguma forma de racismo?
Não de forma ofensiva, mas sei que há muitas coisas para as quais nem sequer sou pensada por causa do meu tom de pele. Embora não veja isso com mágoa. Alguém caucasiano teria o mesmo tipo de dificuldade num país não caucasiano. Faz parte do estereótipo do espaço em que estejamos inseridos. Apesar de eu ser portuguesa e de ter uma formação totalmente ocidental. Mas vejo isso até com um certo orgulho. Sempre que avanço, sei que nada me foi oferecido, nada foi fácil. Sempre lutei imenso por tudo.
Agora dá chapadas de luva branca?
Não penso nisso, nem nas pessoas que me fecharam portas. Regra geral, tento ignorar a ignorância maldosa. Muita gente que duvidou e não acreditou em mim não merece o meu tempo. Preocupo-me mais em brindar os meus com os êxitos, as minhas energias estão apontadas para coisas positivas.
Sente que o dia devia ter 25 horas?
Se tivesse mais uma hora, arranjaria outra ocupação para completar o dia. Tem 24 e bastam-me.
A rádio é uma "dama" para si?
Está para a apresentação como o teatro está para a representação. Estou ali sem rede. Sou eu própria a ter de me tornar interessante. Aprimora-se a capacidade de comunicar sem guião.
Como recebeu o convite para "Desafio verde"?
Fiquei contente. Acompanho o trabalho da Sílvia Alberto, somos amigas. Conhecia o código genético do programa, não caí de pára-quedas. Deu-me uma maior consciência do meu papel no Planeta.
Agora tem a missão de apelar a um comprometimento ecológico. Já tinha cuidados a esse nível?
Sempre fiz reciclagem, não como muitos congelados, tive sempre em atenção o uso de plásticos, o cuidado em optar por lâmpadas economizadoras. Agora, o reforço nesses cuidados é inevitável. Até na roupa, me preocupo com o conceito "eco-fashion".
in JN